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Eu, o Lápis

15 Out

Eu sou um lápis de grafite – daqueles lápis comuns de madeira, conhecidos de todas as crianças e adultos que sabem ler e escrever.

Escrever é minha vocação e minha profissão; é tudo o que eu faço.

Você pode se perguntar o que me leva a escrever uma genealogia. Bem, pra começar, minha história é interessante. E, depois, sou um mistério – mais do que uma árvore ou um pôr-do-sol ou até mesmo do que um relâmpago. Mas, infelizmente, sou considerado uma dádiva por aqueles que me usam, como se eu fosse um mero incidente, sem um passado cheio de experiências. Essa atitude desdenhosa relega-me ao nível da banalidade. Esse é um tipo de erro lamentável no qual a humanidade não pode persistir por muito tempo sem riscos. Como o sábio G. K. Chesterton observou, “Nossa decadência vem da falta de maravilhamento, não da falta de maravilhas.”

Eu, o Lápis, apesar de parecer simples, mereço seu maravilhamento e espanto, como tentarei demonstrar. Na verdade, se você tentar me compreender – não, isso é pedir demais – se você puder perceber a maravilha que eu simbolizo, você pode ajudar a salvar a liberdade que a humanidade está infelizmente perdendo. Tenho uma lição profunda para ensinar. E posso ensiná-la melhor do que um automóvel ou um avião ou uma máquina lava-louças porque… bem, porque eu sou aparentemente tão simples.

Simples? Ainda assim, não há uma única pessoa na face da terra que consiga me produzir. Parece fantástico, não? Especialmente quando se descobre que existem em torno de um a um bilhão e meio da membros da minha espécie produzidos nos EUA a cada ano.

Pegue-me e dê uma boa olhada. O que você vê? Não há muito o que contemplar: madeira, verniz, a marca impressa, a ponta de grafite, um pouco de metal e uma borracha.

Inumeráveis antepassados

Do mesmo modo que você não pode rastrear o passado de sua árvore genealógica até muito longe, para mim é impossível nomear e explicar todos os meus antepassados. Mas eu gostaria de citar alguns deles para que você se impressione com a riqueza e complexidade do meu passado.

Minha árvore genealógica começa com uma árvore de verdade, um cedro nascido da semente que cresce no nordeste da Califórnia e no Óregon. Agora visualize todas as serras e caminhões e cordas e outros incontáveis instrumentos usados para cortar e carregar os troncos de cedro até a beira da ferrovia. Pense em todas as pessoas e suas inumeráveis capacidades que concorreram para minha fabricação: a mineração de metais, a fabricação do aço e seu refinamento em serras, machados, motores, toda o trabalho que faz as plantas passarem por vários estágios até tornarem fortes cordas; os campos da lenharia com suas camas e refeitórios, a cozinha e a produção de toda a comida. Milhares de pessoas têm participação em cada copo de café que os lenhadores bebem.

Os troncos são enviados para uma serraria em San Leandro, Califórnia. Você pode imaginar os indivíduos que fizeram os vagões e os trilhos e as locomotivas e que construíram e instalaram os sistemas de comunicação para tudo isso? Essas multidões estão entre os meus antepassados.

Considere o trabalho da serraria em San Leandro. Os troncos de cedro são cortados em pequenas tiras do comprimento de um lápis com menos de 7 milímetros. Eles são cozidos no forno e então tingidos pela mesma razão que as mulheres colocam maquiagem em seus rostos. As pessoas preferem que eu tenha uma aparência bonita, e não um branco pálido. As tiras são enceradas e levadas ao forno novamente. Quantas habilidades foram necessárias para a fabricação da tintura e dos fornos, para prover o calor, a luz e a eletricidade, os cintos, os motores, e tudo o mais que uma serraria requer? Faxineiros da serraria entre os meus antepassados? Sim, e também os homens que despejaram o concreto para a represa da hidroelétrica da Pacific Gas & Electric Company que forneceu a energia da serraria!

E não esqueça os antepassados presentes e distantes que participaram do transporte das sessenta cargas de tiras através do país.

Na fábrica de lápis – $4.000.000 em maquinário e construção, tudo capital acumulado pelos meus pais econômicos e frugais – uma máquina complexa faz oito entalhes em cada tira, e depois disso outra máquina deposita a ponta, aplica a cola e coloca outra tira em cima – um sanduíche de grafite, por assim dizer. Sete irmãos e eu somos mecanicamente esculpidos nesse sanduíche de madeira.

Minha ponta também é complexa. O grafite vem de minas no Sri Lanka. Pense nos mineradores, naqueles que fabricam suas diversas ferramentas, nos fabricantes dos sacos de papel nos quais envia-se o grafite, naqueles que fazem os cordões que amarram os sacos, naqueles que os embarcam nos navios e naqueles que fabricam os navios. Até os mantenedores do farol auxiliaram o meu nascimento – além dos navegadores do porto.

O grafite é misturado com argila do Mississipi, em cujo processo de refinamento se usa hidróxido de amônio. Agentes umidificantes são então adicionados, como sebo sulfonado – gorduras animais com ácido sulfúrico. Depois de passar por numerosas máquinas, a mistura finalmente surge na forma de filetes expelidos – como se saíssem de um moedor de carne – cortados no tamanho certo, secos e assados por horas a mais de 1000 graus Celsius. Para alisar e aumentar sua resistência, as pontas são então tratadas com uma mistura quente que inclui cera candelilla do México, parafina e gorduras naturais hidrogenadas.

Minha madeira recebe seis camadas de verniz. Você sabe todos os ingredientes do verniz? Quem poderia imaginar que os cultivadores de mamona e os refinadores de óleo de mamona fazem parte? Mas fazem. Aliás, até os processos pelos quais o verniz adquire um belo tom de amarelo envolvem a perícia de mais pessoas do que qualquer um pode enumerar!

Observe minha marca. Ela é um filme formado pela aplicação de calor sobre carbono negro misturado com resinas. Como se faz resinas e, me diga, o que é carbono negro?

Meu pedaço de metal – o anel – é latão. Pense em todas as pessoas que mineram zinco e cobre e naqueles que possuem as habilidades para fazer brilhantes placas de latão desses produtos da natureza. As pequenas manilhas no meu anel são níquel preto. O que é níquel preto e como ele é aplicado? A história completa sobre o porquê do centro do meu anel não possuir níquel preto levaria páginas para explicar.

Então há a minha gloriosa coroação, a borracha, a parte que o homem usa para apagar os erros que ele comete comigo. São os ingredientes abrasivos que apagam. Produtos feitos pela reação do óleo de semente de colza das colônias holandesas com cloreto sulfúrico. A borracha, contrária ao senso comum, é só para dar consistência. Então, também, há numerosos agentes vulcanizantes e aceleradores. A lixa vem da Itália; e o pigmento que colore a borracha é o sulfato de cádmio.

Ninguém sabe

Alguém deseja contestar minha afirmação anterior de que não há sequer uma pessoa na face da terra que saiba como me fazer?

Realmente, milhões de seres humanos participaram da minha criação, e nenhum deles conhece mais do que alguns dos outros. Agora, você pode dizer que estou indo longe demais ao relacionar os colhedores de café no Brasil, e em outros lugares, à minha criação, que essa é uma posição extremada. Mantenho minha posição. Não há uma única pessoa em todos esse milhões, incluindo o presidente da companhia de lápis, que contribiu mais do que uma mínima, ínfima porção deknow-how. Do ponto de vista do know-how a única diferença entre o minerador da grafite e o lenhador em Óregon é o tipo do know-how. Nem o minerador nem o lenhador pode ser dispensado, tampouco se pode dispensar o químico da fábrica ou o trabalhador do petróleo – já que a parafina é um subproduto do petróleo.

Aqui vai um fato assombroso: nem o trabalhador do petró
leo, nem o químico, nem o escavador do grafite ou da argila, nem os homens que fazem os navios ou trens ou caminhões, nem aquele que controla a máquina que arremata meu pedaço de metal, nem o presidente da companhia fazem seu trabalho particular porque eles me querem. Cada um me deseja menos, talvez, do que uma criança na primeira série. Sem dúvida, existem alguns nesta vasta multidão que nunca viram um lápis ou não sabem como utilizá-lo. Sua motivação é outra. É mais ou menos assim: Cada um desses milhões vê que ele pode, deste modo, trocar seu pequenino know-how pelos bens e serviços que deseja ou necessita. E eu posso estar ou não entre esses itens.

Sem uma mente superior

Há um fato ainda mais espantoso: a ausência de uma mente superior, de alguém ditando, ou direcionando forçosamente essas incontáveis ações que me permitem existir. Não há sinal da existência dessa pessoa. Em vez disso, nós encontramos o trabalho da mão invisível. Esse é o mistério a que me referi anteriormente.

Diz-se que “apenas Deus pode fazer uma árvore”. Por que concordamos com isso? Não é porque percebemos que nós mesmos não conseguimos fazer uma? Conseguimos realmente explicar uma árvore? Não, exceto em termos superficiais. Podemos dizer, por exemplo, que uma determinada configuração molecular se manifesta como uma árvore. Mas qual é o intelecto entre os homens que poderia sequer memorizar as constantes mudanças que acontecem na extensão da vida de uma árvore? Essa façanha é absolutamente impensável!

Eu, o Lápis, sou uma combinação complexa de milagres: árvore, zinco, cobre, grafite e muito mais. Mas, a esses milagres que se manifestam na natureza, um milagre ainda mais extraordinário foi adicionado: a disposição das energias criativas humanas – milhões de minúsculos know-hows configurando natural e espontaneamente uma resposta à necessidade e ao desejo humano, sem precisar de qualquer mente superior! Se apenas Deus pode fazer uma árvore, também insisto que apenas Deus pode me fazer. Homens não conseguem dirigir esses milhões de know-hows para me trazer à “vida” mais do que conseguem ajustar as moléculas para criar uma árvore.

O parágrafo anterior mostra o que procurei expressar quando disse “se você puder perceber a maravilha que eu simbolizo, você pode ajudar a salvar a liberdade que a humanidade infelizmente está perdendo”. Se alguém atentar para o fato de que esses know-hows irão naturalmente, até mesmo automaticamente, arranjar-se em padrões produtivos e criativos em resposta às necessidades e demandas humanas – ou seja, na ausência de um governo ou qualquer outra mente superior coercitiva – então este alguém possuirá um ingrediente absolutamente essencial para a liberdade – a fé nas pessoas livres. A liberdade é impossível sem essa fé.

Uma vez que o governo tenha o monopólio de uma atividade criativa como, por exemplo, a entrega de correspondências, a maioria dos indivíduos passou a acreditar que as cartas não poderiam ser entregues eficientemente pela ação livre dos homens. E aqui está a razão: cada um reconhece que ele próprio não sabe como fazer acontecer todas as circunstâncias para a entrega de correspondências. Essas suposições estão corretas. Nenhum indivíduo possui conhecimento suficiente para efetuar a entrega de correspondências para toda a nação mais do que algum indivíduo possui conhecimento suficiente para fazer um lápis. Agora, na ausência da fé nas pessoas livres – sem a percepção de que milhões de pequeninos know-howspodem natural e miraculosamente formarem e cooperarem para satisfazer suas necessidades – o indivíduo só pode concluir equivocadamente que a correspondência só pode ser entregue graças à “mente superior” do governo.

Fartura de testemunhos

Se eu, o Lápis, fosse o único item que pudesse oferecer testemunho sobre o que homens e mulheres podem realizar quando têm liberdade para experimentar, então aqueles com pouca fé teriam um argumento justo. No entanto, há fartura de testemunhos: estão à nossa volta, ao nosso alcance. A entrega de correspondência é muitíssimo simples quando comparada com, por exemplo, a fabricação de um automóvel ou uma calculadora ou uma máquina agrícola ou dezenas de milhares de outras coisas. Entrega? Aliás, onde os homens puderam se aventurar nessa área, eles conseguiram fazer a entrega da voz humana em menos de um segundo: entregam um evento visualmente e em movimento na casa de qualquer pessoa no momento em que está acontecendo; entregam 150 passageiros de Seattle a Baltimore em menos de quatro horas; entregam gás do Texas ao fogão ou fornalha de alguém em Nova York por preços inacreditavelmente baixos e sem subsídio; entregam um quilo de óleo do Golfo Pérsico no oeste americano – meia volta ao mundo – por menos do que o governo cobra para entregar uma carta de 50 gramas ao outro lado da rua!

A lição que eu tenho para ensinar é a seguinte: não deixe as energias criativas permaneçam desimpedidas. Simplesmente organize a sociedade para agir em harmonia com essa lição. Deixe que os aparatos legais da sociedade removam todos os obstáculos da melhor forma possível. Permita que esses know-hows fluam livremente. Tenha fé que homens e mulheres irão responder à mão invisível. Essa fé será confirmada. Eu, o Lápis, aparentemente tão simples, ofereço o milagre da minha criação como um testemunho de que essa fé é real, tão real quanto o sol, a chuva, o cedro, tão real quanto a Terra.

Sobre o autor: Leonard Read foi o fundador da Foundation for Economic Education (FEE) e autor de vinte e sete livros e inúmeros ensaios. Ele foi um dos principais responsáveis pelo avivamento liberal no pós-guerra.

Ligações: Tradução original no Ordem Livre, Vídeo com Friedman, PDF de outra tradução.

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One response to “Eu, o Lápis

  1. José António Rodrigues Carmo

    16 16UTC Outubro 16UTC 2012 at 13:29

    O Milton Friedman conta uma história semelhante, no seu livro “Free to choose”.

     

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