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Cuba em filme: “Período Especial – O Fim que Não Acaba”

01 Jul

Muita gente não tem ideia de quão lesiva pode ser a intervenção do Estado em toda a economia, até conviver com ela no dia-a-dia. Os controlos económicos implicam controlos políticos e sociais em escala crescente até que toda a economia e todas as opções das pessoas são decididas por uma pessoa que não conhecemos e que não nos quer conhecer.

Enquanto não chega o filme, fica aqui o trailer:

Fonte: Rui Carmo n’O Insurgente, Fotogaleria Sábado.

Anexo a partir da Sábado (para evitar que saia do ar):

Helena Canhoto tentou passar por turista. Levou uma câmara pequena e o iPhone, e queria filmar cubanos de várias regiões. Mas quando tentou viajar pelo país ameaçaram-na de prisão.

Por Tânia Pereirinha

Desde que, em 2009, passou quatro meses em Havana, a estudar cinema na mítica Escuela Internacional de Cine y Televisión, fundada em 1986 por Gabriel García Marquez com o apoio de Fidel Castro, Helena Canhoto decidiu: um dia iria filmar um documentário sobre o país. Na altura congeminou um plano, num almoço em casa de Miriam Socarras, uma conhecida actriz cubana, agora com 72 anos, para o qual tinha sido igualmente convidado Herberto Mattel, argumentista, também septuagenário. “De alguma forma eles também se fascinaram pelo meu fascínio por Cuba. Ele dispôs-se prontamente a escrever o guião”, conta Helena à SÁBADO.

Como já deu para perceber, o filme foi feito, chama-se ‘Período Especial: O Fim Que Não Acaba’, tem cerca de 30 minutos, já foi entregue à aprovação dos júris de uma série de festivais de cinema do género, Doc Lisboa incluído. Só não foi feito com guião de Mattel: “Voltei para Portugal poucos dias depois e tentei entrar em contacto por e-mail com ele e com a Miriam. Um ano depois descobri que os nossos e-mails estavam a ser comidos pela censura.”

Depois de meses de comunicação via bilhetes enviados por amigos de amigos que visitavam a ilha, Helena, 27 anos, deixou de conseguir contactar o argumentista. E percebeu que tinha de se lançar no projecto a solo. A oportunidade surgiu quando, no início de 2012, foi convidada para integrar, como assistente de produção, uma equipa de cinema alemã que se preparava para filmar uma curta-metragem em Havana. Não podia ser só uma coincidência, acabou por transformar-se no álibi perfeito: “Não podia ir para Cuba sem uma justificação.”

Ficou no país quatro meses: durante três semanas trabalhou na curta, no resto do tempo dedicou-se ao documentário, feito com um orçamento de apenas três mil euros, entre dinheiro que poupou e que pediu emprestado aos pais.

“A minha ideia original era ir sozinha de mochila, como turista, fazer um percurso que incluía Havana, Cienfuegos, Baía dos Porcos, Santa Clara (onde fica o mausoléu do Che Guevara), Holguin e Camaguey. Depois ia para a Serra Maestra, onde foi iniciada a revolução de Fidel e terminava em Santiago de Cuba. Em Portugal preparei um dossier com os contactos das casas particulares de confiança para ficar nesses lugares todos”.

Mais uma vez, a realidade trocou-lhe as voltas: a actual produtora executiva da brasileira Colisão Filmes, com sede em São Paulo, não chegou a sair da capital.

A ideia era filmar, com uma câmara pequena e com o iPhone, em que incorporou um microfone, os depoimentos de uma série de cubanos, de várias zonas da ilha, sobre o período histórico do país conhecido como “Especial”.

“Com a queda da ex-URSS [em 1991], Cuba ficou desamparada. Numa semana tinham todo o apoio soviético, na outra não tinham nada. Os armazéns ficaram vazios, não havia luz, água, gás. E as poucas coisas que sobravam eram vendidas como comida. Vendiam piza com preservativos derretidos por cima, disfarçado de queijo, e vendiam sanduíches em que o que ia dentro não era um bife mas um esfregão cozinhado com temperos numa frigideira. Parece um filme mas aconteceu e não há muito tempo”, explica Helena. Que assim que se dispôs a apanhar o primeiro autocarro para fora de Havana foi avisada de que se tentasse fazer o documentário seria presa no primeiro destino. E que se aí conseguisse escapar, a apanhariam no seguinte.

“Ficas presa durante 25 anos sem direito a julgamento”, avisou-a um homem no campus da Escuela Internacional de Cine y Televisión. Que sabiam quem ela era e o que andava a fazer e que até então a tinham tolerado, mas que o melhor era parar por ali. Teve medo. Não parou, mas decidiu que ia rodar o filme apenas em Havana.

“Lá era mais fácil proteger-me, há muitos turistas, andava de chapéu de palha e sandálias, a olhar para todo o lado como se fosse a minha primeira experiência em Cuba. Nem sempre funcionava, entrei em casa de pessoas que são vigiadas 24h por dia como é o caso do Gabriel Calaforra, ex-embaixador na Polónia, que tem reuniões semanais para falar de política em casa com jovens interessados no assunto, acto esse que é penalizado por lei e constitui «tentativa de alteração da estrutura do sistema»”, justifica.

Ao todo, ‘Período Especial: O Fim Que Não Acaba’ (ainda sem data de estreia mas com exibição assegurada em Dezembro, na XII Mostra de Documentários sobre Direitos Humanos, organizada pela Amnistia Internacional no Centro Olga Cadaval, em Sintra) conta a história de sete cubanos. Uma estudante universitária, um pai contra-revolucionário, um professor doutorado, uma actriz que tem fotos com o rei de Espanha no hall de entrada, uma engenheira que estudou na Rússia e foi fundadora das milícias das tropas territoriais, um ex-embaixador e uma professora universitária na reforma.

De fora, Helena Canhoto deixou dois entrevistados. Na edição do filme, que só foi capaz de começar quase um ano depois de ter deixado a ilha, também houve muito material a ser cortado. Culpa da censura existente no país e da hipersensibilidade do tema:

“Só quando entrava na casa das pessoas e fechava a porta é que explicava que queria falar do Período Especial, da fome, da experiência verdadeira. Quando disse que queria ouvir a verdade, nem sempre foi fácil, houve pessoas que disseram coisas totalmente diferentes quando liguei a câmara. E eu compreendi porque elas continuam lá, e têm família e há consequências. Eu própria censurei a montagem, com consciência de que algumas afirmações podiam acabar com a vida dessas pessoas: não digo que digo que as vão matar, claro, mas sanções sociais, desemprego, tudo lhes pode acontecer.”

Ela própria teve muito medo de não conseguir sair do país incólume e – quase tão importante quanto isso – com o material que filmou. Dias antes da partida, começou a ficar nervosa. Depois de copiar os 250 GB de vídeo que tinha capturado para vários cartões de memória, entregou os originais a um conhecido, de nacionalidade brasileira. Combinou com ele: se chegasse bem a Portugal, ligava-lhe e ele formatava o disco; se lhe acontecesse alguma coisa e as imagens fossem apreendidas, ligava-lhe e congeminavam outra forma de as tirar da ilha.

No dia do regresso, foi para o aeroporto com um papel dobrado na mão, com o número de telefone da Embaixada de Portugal em Cuba. Chegou a pensar que ia ter de o usar quando, já dentro do avião, já na pista, percebeu que se passava alguma coisa e que o comandante tardava em anunciar a descolagem. Terão sido apenas alguns minutos, mas para a portuguesa, aterrorizada com a ideia de que as portas se poderiam voltar a abrir, para dar passagem à polícia do governo cubano, pareceram horas. Quando finalmente deixou de ver o recorte da ilha através da janela, largou num pranto.

“Chorei de tristeza e alívio. As minhas amizades cubanas diziam que Cuba era também a minha casa. E eu sabia que, na verdade desse sentimento, tinha cumprido a minha missão e que isso me impedirá de lá voltar por tempo indefinido. Mas como também aprendi com o povo cubano, a indefinição faz parte da vida. Por isso, não tenho pressa.”

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