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Personificação de Colectivos

16 Out

Tudo o que seja negativo deverá ser da responsabilidade de um colectivo. Existem muitos disponíveis para arcar com culpas como “A Sociedade”,  “A Pobreza”, “A Economia de Mercado”, “O Mercado de Trabalho”, ou de forma mais genérica “Os Portugueses”. Exemplos de uso desta técnica são “O Mercado de Trabalho é que obrigou o Joaquim a aceitar aquelas condições” ou “A Pobreza existente neste país levou a que ele ter de trabalhar em 2 empregos”. Obviamente estas frases são apenas destinadas a esconder os verdadeiros responsáveis pelas situações – muitas vezes o trabalhador ou alguém no passado dele – e ser simpático para alguém próximo ou de interesse. Independentemente da motivação para tal discurso suave, o resultado é sempre a desresponsabilização, ocultando o verdadeiro problema.

FreguesiasPode não parecer uma técnica estatística, mas na verdade é usada muitas vezes, sobretudo em noites eleitorais. Quem nunca ouviu algo próximo de “Os Portugueses mostraram sabedoria por não querer atribuir a maioria a António Guterres, demonstrando assim preferir um governo de consensos”? A frase anterior é falsa não só porque o resultado das legislativas de 99 não diz nada sobre o que cada indivíduo pensou ao votar, como também porque nada poderia ser dito sobre um conjunto que é muito heterogéneo nas suas preferências políticas, com indivíduos desse conjunto a votar desde a extrema-direita à extrema-esquerda.

Como usar esta técnica? O truque é a definição do conjunto. Queremos que ela seja o maior possível, mas sempre dentro do conjunto que nos permite tirar a conclusão pretendida. Para um exemplo, estudemos Sócrates, um político mestre nesta arte. Na noite eleitoral das autárquicas de 2013, ele disse algo do género “Como demonstram os resultados de Lisboa, Sintra, Porto e Gaia, os eleitores urbanos (por vezes foi mais audaz e disse “os portugueses”) estão contra o PSD e as suas políticas.” Há aqui vários níveis de habilidade, mas foquemo-nos na personificação dos colectivos: ele usou resultados favoráveis e fez um conjunto para dizer que todos os eleitores de todas as principais cidades votavam num sentido. Perguntas:

  1. Quantos eleitores que votaram em Rui Moreira e não em Luís Filipe Menezes realmente estão a votar a favor do despesismo e contra a austeridade?
  2. Quanto eleitores de Gaia, ao votarem na mudança e não no herdeiro de Luís Filipe Menezes, realmente estavam a votar a favor do despesismo e contra a austeridade?
  3. Como fazer uma leitura dos resultados de Sintra sem levar em conta o facto de Pedro Pinto se ter imposto como se impôs e de os 2 candidatos PSD terem tido mais votos que o do PS?
  4. Em Lisboa, António Costa reduziu o passivo. Foi esse um voto a favor do despesismo e contra a austeridade e as “contas certas”?
  5. Como ignorar as perdas de Braga e Guarda pelo PS (para o PSD)?
  6. Como explicar as perdas por Alberto de João Jardim na Madeira (de todas as 11 câmaras para 4)? Ficaram os Madeirenses subitamente  a favor do despesismo e contra a austeridade de AJJ?
  7. Como ignorar que o PS desceu em número de votos nestas autárquicas, apesar das conquistas na Madeira e das entregas de bandeja de algumas câmaras por guerrilhas partidárias locais?

Note-se aqui que eu não estou a dizer que “os Madeirenses” castigaram o AJJ. Alguns fizeram-no, outros defenderam-no. No final, o número dos que castigaram o seu estilo foi superior em diversas câmara e portanto a maior parte das câmaras mudou do PSD para outras forças partidárias. Nada pode ser dito sobre o “os Madeirenses” em geral, excepto talvez se for um comentador com ambições.

Numa nota final, gostaria de sublinhar que este truque é sobre a interpretação dos números, mas pode também implicar a geração dos mesmos. Ou seja, com base em resultados divididos por pequenos grupos (ex: concelhos), podem também ser contruídos resultados de constructos artificiais, “aleatórios” 😉 e alteráveis conforme a conveniência. A imaginação é o limite.

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