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Vitor Bento sobre a Austeridade

28 Nov

“E se olhássemos os números?”, no Diário Económico:

Para fugir ao impressionismo que costuma dominar a discussão do nosso ajustamento, procurei alinhar no quadro junto informação relevante dos cinco países da zona euro envolvidos em processos semelhantes (deixo de lado o Chipre, pela dimensão e curta história no euro).

Como se pode ver, todos estes países (com excepção da Itália) partiram de desequilíbrios financeiros semelhantes, traduzidos em elevadas posições externas negativas, e que, dependendo muito do financiamento externo, ficaram muito vulneráveis à “secagem” dessa fonte. Por outro lado e com excepção da Grécia (com uma recessão particularmente funda), a profundidade das recessões provocadas pelo ajustamento tem sido semelhante em todos os países.

Da mesma forma que, dada a natureza dos desequilíbrios, a redução da procura interna tem sido a principal variável do ajustamento macroeconómico. Portugal não se distingue significativamente em nenhum destes indicadores, e, no impacto verificado na taxa de desemprego, tem ficado muito aquém do que aconteceu em Espanha ou na Grécia.

Onde Portugal se diferencia muito negativamente é no crescimento conseguido antes da crise, apresentando, com a Itália, o pior desempenho de toda a zona euro. O que não pode deixar de se reflectir na percepção das perspectivas de crescimento futuro e, por conseguinte, nas próprias condições do ajustamento. Neste contexto, a narrativa dominante é, não só errada, como contraproducente, pois que não é devido à austeridade que a economia não cresce (como não cresceu quando não havia austeridade), mas é falta de condições de crescimento que acentua a austeridade.

Eu explico: a sustentabilidade da dívida depende, positivamente, do crescimento do PIB e, negativamente, da taxa de juro, tendo o saldo primário do orçamento (saldo sem juros) que acomodar os impactos favoráveis ou desfavoráveis dessas variáveis. Com excepção dos dois primeiros anos dos euro, o crescimento da economia foi sempre inferior à taxa de juro. Para que a dívida fosse sustentável seria, pois, necessário que o orçamento produzisse excedentes primários, o que nunca aconteceu. Por isso, o rácio da dívida cresceu sempre (foi, da zona euro, o que mais aumentou até à crise), encurtando a sua sustentabilidade.

Acabado o financiamento que alimentou esse caminho, o ajustamento tornou-se inevitável. E este exige excedentes primários no Orçamento. Só que, agora, entrou-se num círculo vicioso: a contracção orçamental impacta desfavoravelmente no crescimento imediato, o que acaba por requerer mais contracção orçamental.

De um tal círculo só se consegue sair desbloqueando as condições de crescimento. Ou seja, aumentando a competitividade da economia. Esta é – e continua a ser, porque muito pouco foi feito nessa frente e as resistências continuam enormes – a variável crucial para a sustentabilidade do ajustamento e para a recuperação económica sustentada.

Fraco crescimento com dívida elevada, é também o que junta a Itália (sem grandes desequilíbrios externos) a este grupo. E forte crescimento (3 vezes a média da zona, apesar da crise) é o que faz a Irlanda descolar-se.

 

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